terça-feira, 18 de agosto de 2015

Desabafos



Não há capelas de rosas
virginais originalidades em garrafas
fumo polido pelos dias.
Não há nada. Disto
ou daquilo
existe um só objecto da escrita.
Tu. Coisa minha.
De mim e meu.
O resto não é paisagem,
são ornamentos pendurados
os dias, oxidam o quadro.
Nunca foi interesse fazer boneca perfeita.
Nem de boneca,
nem de perfeita.
A coisa em si,
objecto da escrita só existe
se
houver quem o escreva,
perdido na substancial essência incompreensão,
nem vale a pena perder ou
guardar na memória. É intrínseco ao próprio acto da escrita.


É existir paralelamente à realidade
fisicamente incontactável
do teu pescoço.




quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que os olhos não ouvem

No dia em que mais nada conseguir fazer, vou escrever um livro sobre a estupidamente significante podridão humana, ao mesmo tempo que entrelinho, borboletas a esvoaçar por ter ouvido, da janela do quarto das leituras, um senhor que ao passar na rua, assobiava Coltrane. 

Esta dificuldade em ser crente no homem, como indivíduo, e paradoxalmente uma indestrutível fé romântica e ingénua em Coltrane...


terça-feira, 14 de julho de 2015

maternidade



Criar um filho e ter um filho são coisas bem diferentes.
Ter um filho é um acto infinito e perpétuo.
Criar um filho é prepará-lo para a guerra, com ou sem balas.
É trair o próprio acto em si da criação.

Destiná-lo a ser cada vez menos e mais longe o que uma vez se teve perpétuamente, e desejar com todos os ossos partidos, que este nunca seja o dele. É viver depois de ter um filho numa solidão imensa de mãe, que ralha, castiga e à noite desenha universos imensos de perder de vista, enquanto em segredo, a coberto do sono pequenino, se abraça aquele filho, tido, muito, sem nunca ter vontade que nasça.



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Espelho

É uma ampulheta o tempo ausente
estradas de linhas que são o teu corpo.
Conversa aqui e ali ao longo de verdes 
e flores por ti assinaladas. 
O desejo estende-se numa saudade 
volta ao mundo em balão.



São os teus olhos em todo o lado 
e o teu pensamento 
sobrevoa-me como uma neblina que distorce a luz.

Fica tudo da mesma cor
as palavras ecoam em todas as arestas onde se partem 
infinitos cintilantes fragmentos 
dispersam-se 
invisíveis por toda a cidade. 

Todas as pessoas são iguais a ti
a cidade mais não é que o teu reflexo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

por falar em Eugenio de Andrade

Porque nem só de cartas se fazem os dias e a poesia é como o cigarro- distrai-me, diariamente e várias vezes ao dia. É como o pensamento: todos os ventos me levam a ti.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A poesia é um fantasma que nos possui e atormenta. Não serve para ordenado, nem para almoço, nem como engate, nem como coisa bonita e de gente sensível. Conheço muito boa alma que tem a felicidade de não ser poeta e ainda bem para eles! 
Não é agradável, não é um marco e também não é necessariamente bonita.
Por isso, façamos de conta que a poesia é como ter sarna. Não convém entrar em contacto directo.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Em homenagem a uma mulher


Amanhã vou crescer muito, durante a noite.
Vou atar infinitos balões ao teu corpo e fazer te sobrevoar as nossas planícies
Lá muito do alto, lá em cima onde se vê o Alentejo quase todo.
Depois, como vou ser muito grande, vou te mostrar que todos os campos são o contorno do corpo,
Que os rios são o sangue e as árvores os pelos e as flores são quânticos resquícios.
As barragens são os olhos. Cheios. Imensos de tudo.
Amanhã quando for muito grande vou te mostrar que ela, afinal, está ainda cá. Que a podes cheirar e que os girassóis que tanto adoras podem ser o corpo para passares a mão e sentires que afinal, ainda cá está.
Porque afinal está, a única diferença é que está dividida em milhares de átomos espalhados sobre o teu Alentejo,
sobre o Minho dela
porque na verdade, meu amor, nunca desaparecemos.
(Os budistas é que tinham razão. É o amor que temos que nos faz reencarnar em coisas tão bonitas como as flores. )
O amanhã ainda não veio e eu sinto me pequenina para te amparar, por isso, transformei te numa pedra para que só sintas amanhã,
quando eu for muito grande, para te poder ter sempre protegido numa concha feita das minhas mãos.