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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





sexta-feira, 20 de junho de 2014

Novos velhos novos



Sentou-se gasta e velha e inchada como as velhas moídas da vida, com rugas tão fundas que se vê o outro lado do corpo. Onde a vontade é uma poeira muito antiga esquecida numa prateleira de livros usados. Igual só o banco do jardim comido pelo sol. Iguais só as pedras da calçada que todos os dias lêem o mesmo jornal, lambem as mesmas solas e bebem a mesma água.
Quando se deu conta era já o por do sol a lembrar-lhe que o frio também é importado, tal como os netos que chegam com o calor. Quando se deu conta as coisas da pressa e a pressa da das coisas morriam na praia de um verão distante em fotografia a preto e branco.
“Onde? Onde morri eu que já não me lembro?”

sábado, 6 de julho de 2013

Cor de tudo e nada de cor de tudo e nada de cor



O chão branco-eterno jogava às escondidas com o sol debaixo das sombras irrequietas. Os pássaros cor de castanho-finito poisavam sobre as árvores verde-musgo-eterno. Havia um sossego espesso que a enrolava num manto azul-céu-infinito que ela provava com as pestanas.
Pensava que se ficasse estátua branca-eterna o chão havia de crescer como as trepadeiras pelos pés e pernas brancas-finitas, que o sol havia de a transformar em castanho-finito e que as árvores verde-musgo-eterno haveriam de se debruçar sobre a estátua branca-finita.
Pensava que se ficasse cor de tudo podia ficar invisível-transparente e que a vida espessa que a enrolava num embalo sossegado a conservaria intacta-fóssil até que ele, feito de chuva e vento, reparasse que o mundo de repente se tinha cansado de fazer todas as coisas de mundo.
Morreu aos 22 anos intacta-fóssil, sentada numa pedra cor de musgo.
O mundo não parou e ele não choveu.