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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Já ninguém



Revolvem-se sombras geocentricamente em frente
vielas roucas de bairro arrastam demoradamente 
preâmbulos monótonos da insignificância
carceres vulgarmente ocasionais
e já ninguém estranha.

Da vida e da sua exiguidade
ninguém lembra a causa de tamanho lapso
- é a vida – dizem com voz de cansaço.

Entre o pó esquecido dos dias afio o gume
desinteressadamente rombo da humanidade.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevoando a paisagem cultural portuguesa



Deixa-los ignóbeis e profanos, defuntos e cinzentos, pois nós somos de luz e de helénicas colunas de vontade e de ânsias de saberes e do mundo. 
Deixa-los ser, pequenos e redundantes, pois nós somos a letra e a flor.

Deixa-los. 
Os jardins não se fazem de ervas infestantes nem de larvas parasitas. 

Voamos acima deles, os seres alados enxergam mais e mais longe e não são tocados pelo que no chão rasteja.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Igor Stravinsky e eu



Se mergulhar de repente
como quem faz música por dentro da tua pele
rasgar-te-ei pautas
sem Dó.
enquanto é tempo,
não sei se aguento:
comer-te as entranhas por dentro
desarranjar partituras
graves profundidades
de agudos
só.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Exercício de conversação enquanto vejo as notícias na televisão



Arraigado no meu coração mora um grilo de nome Trovão.
todas as noites canta e acorda o vizinho de cima,
faz largar beijos a escorrer pelos dedos.
às vezes maltrato-o, sustenho a respiração durante muito tempo
até as estrelas estarem dentro dos meus olhos .
ele é pérfido e perverso, mastiga a moral mundana com seiva de puta.
disse-me um dia que o fazia só para me castigar,
que eu tinha de aprender o que ainda existia de bizarro.
às vezes batia-lhe à porta de casa, aos murros opacos
e de manhã acordava com o coração negro.
pensava eu que seriam farpas, mas não,
o grilo nascia mais um bocadinho.
Ele, resiliente e obstinadamente, à noite, dava-me insónias de verão.


sábado, 17 de agosto de 2013

Crua



Não me fales das flores, dos campos, das cores, do arco-íris e das papoilas.
Fala-me da carne crua que levas à boca, das fodas loiras, do esmagamento do ar nos pulmões, da claustrofobia da solidão e da masturbação.
Sussurra-me ao ouvido aquele momento de lucidez que permitiste à loucura.
Lê-me os cantos de maldoror como uma história de embalar e aconchega-me com o manto surreal do teu abraço à meia luz da tua insónia; Escreve no meu corpo a violência do teu tormento com a clareza do som da tua voz.

Dá-me tudo, porque eu tenho uma fome imensa de um universo que espera.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

The Beaver



No fundo não existimos, somos teimosamente ancorados à imagética de uma realidade fictícia residual elaborada pela utopia do amor.
No fundo não vivemos, arrastamos-nos barulhentos e pesados pelas correntes e o pior é que não sabemos viver sem elas.

Mas quem? Quem é que foi o cobarde que nos disse que éramos livres?
E ai de mim, de ti ou até de nós que tentemos ser livres. Seremos presos por nós próprios e confinados ao cárcere da nossa solidão assistida.

O Castor é que tinha razão, só mesmo cortando a própria mão.







terça-feira, 11 de junho de 2013

Perpetua-se um nevoeiro que me tolda a inteligência


Trago nas mãos dentro do bolso das minhas coxas, a imagem embrulhada de ti; com um sorriso afunilado lá longe humedece-me os lábios de cereja feitos de beijos. Os passos pisados de uma calçada agastada pelas pressas ficam indiferentes ao que trago enrolado nos dedos, como se fosses tu a brincar com o meu cabelo - ainda sinto o calor amor das tuas mãos.
As pernas novelo desembaraçam-se lânguidas na almofada do sono e o sol nasce devagar perante a minha contemplação das tuas nádegas, porém, o dia despe-me a epifania onírica e saio de casa com os dedos inchados do sonho.
Como um peixe na praia, sufoco lentamente com os dedos na boca - a minha petite mort; e as pedras agastadas continuam indiferentes ao que trago nos bolsos.
Esta dicotomia aparentemente paradoxal de uma cegueira que visto de lençol branco lavado antes de me deitar serve-me de colo ao embalo do sono que anseio e odeio. Descobri esta vergonha da singularidade que pensei nunca existir no bolso das minhas coxas - uma parede de taipa branca, sem janelas para o mar.
E sufoco lentamente com os dedos na boca.

domingo, 9 de junho de 2013

Tenho em mim esta sofreguidão de te comer


Morder todos os pedacinhos do teu corpo e guardar na minha língua o sabor férreo do teu sangue para depois lamber as tuas feridas dos meus tormentos.
Não me chega olhar-te assim, nunca me chega sequer olhar-te.Não me chega tão pouco tocar-te, nem sequer beijar-te.
Às vezes abraço-te com a força de te engolir molecularmente e encarnar-te na minha carne feita de pedras e ruelas escuras. 
Também não me chega pensar-te e muito pior me faz imaginar-te. 

A única coisa que me contenta temporariamente a vontade de te esventrar é a lembrança dos plácitos perdurados na minha memória de nós.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

I switch between this and that like footsteps of a cockroach.


Confusion


Causalidade

Pintei as unhas de vermelho para quando coçar os piolhos da minha alma não se notar tanto o asco das minhas entranhas.

Folhas caducas

Há-de ser uma força avassaladora
as patas da joaninha
num quase imperceptível ramo
pequeno, pequeno
os verdes de todos os tons
a luz filtrada
vermelho escondido
sons em redor
batem as asas da borboleta
as larvas saem e as sementes germinam
as gotas são mares
os perfumes, indizíveis
e depois há as letras
e os homens e mulheres
a calcar cimento e alcatrão
e o barulho ruidoso que cala a todos
e tudo é cinzento e em excesso
neons e passadeiras
as crianças já não trazem berlindes nos bolsos
e no entanto
a rádio toca
para a joaninha 
para o cego e o velho sentado
para as silhuetas irrequietas atrás das janelas espelhadas
um planeta sem silêncios 
azul
que se esquece de olhar para dentro 
que é onde se vê mais longe.



Shotgun Wedding



I want to uncover our box
the dust and dirt filled with lipstick
fuck you while I do some shooting
playing Naked City and screaming some Ducasse nasty lines
I want to leave sentences in the form of wounds
kiss you like an eruption
eat you like my favourite desert
be one with you inside a bullet
the most sharp end of a katana
art in a cave
I want you magnetic curve turning red, all the time.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dia logos ex pes sos



- Desconheces o ódio da primavera. Sou inteiramente ascendente.
- Porque falas na primavera se és Inverno enrolado em si próprio?
- Porque de espesso que é o avesso das coisas consegues engolir o que na verdade sempre foi a temperatura quente dos meus ossos.
- Não acredito na queda…
- Não precisas, nem deves. Assim é muito mais escatológico.
- Puta!
- Muito…