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domingo, 15 de dezembro de 2013


desço trago a trago essa corrente de fumo
submersos navios à tona da madrugada
nos olhos rasos de silêncio em vagas de sono
propagam-se nos degraus da entrada

os dias somam-se na luz que dobra os telhados
nas estrelas sobre os joelhos

dormir sobre as raízes da tua floresta 


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Incautos ressaltos cadafalsos



para beber em tragos de assaltos
abriu-se uma fenda no corpo do chão
o cheiro lembrou-se do coração
desapartou-se inquieto do afecto
mandou pegar fogo ao concreto e às urtigas
a comoção.

líquido insecto, que de resto, não digerido
provoca ulceras no estômago do pensamento.

quanto ao mais, que se foda!


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Exercício de conversação enquanto vejo as notícias na televisão



Arraigado no meu coração mora um grilo de nome Trovão.
todas as noites canta e acorda o vizinho de cima,
faz largar beijos a escorrer pelos dedos.
às vezes maltrato-o, sustenho a respiração durante muito tempo
até as estrelas estarem dentro dos meus olhos .
ele é pérfido e perverso, mastiga a moral mundana com seiva de puta.
disse-me um dia que o fazia só para me castigar,
que eu tinha de aprender o que ainda existia de bizarro.
às vezes batia-lhe à porta de casa, aos murros opacos
e de manhã acordava com o coração negro.
pensava eu que seriam farpas, mas não,
o grilo nascia mais um bocadinho.
Ele, resiliente e obstinadamente, à noite, dava-me insónias de verão.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

(m)ar



permanece pena pairando
no ar ondulando
as pernas
e a seguir andar
de gatas pena ondulando
permanece pairando devagar
morrer à fome
em pleno mar


pairando as pernas
brandura insónia
ondulando pena boca
de gatas permanece sem ar






sábado, 17 de agosto de 2013

Crua



Não me fales das flores, dos campos, das cores, do arco-íris e das papoilas.
Fala-me da carne crua que levas à boca, das fodas loiras, do esmagamento do ar nos pulmões, da claustrofobia da solidão e da masturbação.
Sussurra-me ao ouvido aquele momento de lucidez que permitiste à loucura.
Lê-me os cantos de maldoror como uma história de embalar e aconchega-me com o manto surreal do teu abraço à meia luz da tua insónia; Escreve no meu corpo a violência do teu tormento com a clareza do som da tua voz.

Dá-me tudo, porque eu tenho uma fome imensa de um universo que espera.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Perpetua-se um nevoeiro que me tolda a inteligência


Trago nas mãos dentro do bolso das minhas coxas, a imagem embrulhada de ti; com um sorriso afunilado lá longe humedece-me os lábios de cereja feitos de beijos. Os passos pisados de uma calçada agastada pelas pressas ficam indiferentes ao que trago enrolado nos dedos, como se fosses tu a brincar com o meu cabelo - ainda sinto o calor amor das tuas mãos.
As pernas novelo desembaraçam-se lânguidas na almofada do sono e o sol nasce devagar perante a minha contemplação das tuas nádegas, porém, o dia despe-me a epifania onírica e saio de casa com os dedos inchados do sonho.
Como um peixe na praia, sufoco lentamente com os dedos na boca - a minha petite mort; e as pedras agastadas continuam indiferentes ao que trago nos bolsos.
Esta dicotomia aparentemente paradoxal de uma cegueira que visto de lençol branco lavado antes de me deitar serve-me de colo ao embalo do sono que anseio e odeio. Descobri esta vergonha da singularidade que pensei nunca existir no bolso das minhas coxas - uma parede de taipa branca, sem janelas para o mar.
E sufoco lentamente com os dedos na boca.

domingo, 9 de junho de 2013

Tenho em mim esta sofreguidão de te comer


Morder todos os pedacinhos do teu corpo e guardar na minha língua o sabor férreo do teu sangue para depois lamber as tuas feridas dos meus tormentos.
Não me chega olhar-te assim, nunca me chega sequer olhar-te.Não me chega tão pouco tocar-te, nem sequer beijar-te.
Às vezes abraço-te com a força de te engolir molecularmente e encarnar-te na minha carne feita de pedras e ruelas escuras. 
Também não me chega pensar-te e muito pior me faz imaginar-te. 

A única coisa que me contenta temporariamente a vontade de te esventrar é a lembrança dos plácitos perdurados na minha memória de nós.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Causalidade

Pintei as unhas de vermelho para quando coçar os piolhos da minha alma não se notar tanto o asco das minhas entranhas.

Contemplation


I am the in-between stars
not a comet nor a molecule
just there
to contemplate You
from the higher place I can get
to know how You look
from an infinite perspective.







A um suspiro de distância

















Quando estás a um suspiro de distância
não preciso de te alcançar num toque ou beijo
sinto-te
num estremecer próprio do electromagnetismo
e alinho-me nesse campo potencial
arranhas-me e são violinos os arrepios propagados
violeta branco e negro
as sombras no escuro adivinham-se
e volto ao suspiro
volto a esse vácuo
súbito beijo.

Shotgun Wedding



I want to uncover our box
the dust and dirt filled with lipstick
fuck you while I do some shooting
playing Naked City and screaming some Ducasse nasty lines
I want to leave sentences in the form of wounds
kiss you like an eruption
eat you like my favourite desert
be one with you inside a bullet
the most sharp end of a katana
art in a cave
I want you magnetic curve turning red, all the time.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dia logos ex pes sos



- Desconheces o ódio da primavera. Sou inteiramente ascendente.
- Porque falas na primavera se és Inverno enrolado em si próprio?
- Porque de espesso que é o avesso das coisas consegues engolir o que na verdade sempre foi a temperatura quente dos meus ossos.
- Não acredito na queda…
- Não precisas, nem deves. Assim é muito mais escatológico.
- Puta!
- Muito…

Da perspicácia de uma noite de insónia.


Sabe-me a boca a terra e a cinza.
Caminhamos de costas voltadas, de mãos dadas, como crianças contra a parede nas mãos de um professor tirano; branco, com rugas - remanescendo a fronte da avó e pedacinhos presos de pano amarelo, infinitamente pequenos.
Ganhamos a ilusão que conseguimos lamber as feridas como quem lava uma parede rugosa com a língua e cada palavra que comemos dilacera as crostas que fizemos em voltas de 360 graus sobre nos próprios. Costas com costas mãos dadas parede branco sujo.
Existe naquele pequeno espaço uma sombra purpura feita de tabaco sépia que nos persegue atentamente.
Meto um penso rápido em cima da ferida dum tiro e lavo o nojo das fezes e o asco das mãos molhadas de mijo.