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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





sábado, 11 de janeiro de 2014

Se eu pudesse


Se pudesse era um beijo constante, movimento indefinido, de rotação e posição desconhecidas. Sempre em redor de vós. À espreita e por dentro. Por baixo e por cima. Um ciclone e os ventos quentes quase imperceptíveis. Uma gota de lima no rum ou o perfume do jasmim. Um dedo em círculo no vórtice do umbigo. A ponta da língua instantes antes de tocar.

Se pudesse seria uma corda e a força de tensão exacta para vos segurar num turbilhão de tempo. Infinito. E as complicações todas, luas e planetas.





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

For Lovers



Sometimes I can be like vapour, almost no mass, pushed by the wind, held just by air itself, among leafs, just being, a few beams of light slowly increase my temperature and I rise to contemplate caotic lines . That's the state I let myself get into, when my mind flows among your inner being.

Blood Red
sweet eyes
venom words
flesh, claws
magnetic, curves
velvet, lust
mouth tongue and kisses
freedom, electricity
permanent
hidden inner places
heart
hand, another hand and another
the sum of the angles in a triangle always equals 180º
fear, no fear
passion, night and day
music and poetry
love love love


terça-feira, 15 de outubro de 2013

O fio e o balão


Num toon
rodopios e corropios
uma criança segura um balão
e eu o teu lenço
não há nada mais que o céu e um prado muito verde
e muito espaço para correr
pudesse eu e todas as papoilas seriam tuas
só para ter um beijo teu
e poder dizer o teu nome quando me apetecesse
quando for grande vou tecer fios e vigas para pendurar o universo de ti
e viver sempre neste deslumbramento, lenço e balão.






segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Bairro Alto


travessas morenas
numa calçada escura
evitar as irregularidades
naquela esquina, uma luz
o som que traz o sabor do rum
o conforto do sossego no meio dos outros
para ficar sozinho e poder pensar-te
ver-te, faz-me falta ver-te
e o teu pedido para acender um cigarro
depois consigo ter o verde dos teus olhos
escutar só o teu murmúrio
e a textura do arrepio em ti
dividir em fotogramas o contorno do teu pé
e como calcas o chão com os teus saltos altos
rodas a cabeça e fixo o teu sorriso de menina
na minha pele limpa nada marquei
o ferro quente indelével queima ainda
no fumo podes ler
todas as palavras que são tuas
é nelas que me deixo






sábado, 7 de setembro de 2013

Estorvo arrepio


Foi um estorvo, arrepio
as palavras inquietas
o salto num abraço a esconderes o rosto envergonhada
um beijo rebuçado como desculpa
e juntas os teus lábios aos meus
estalas-me a pele, insuportável comoção
os olhares cruzados, sempre de noite,
porque aqui levantamos parede e conjuramos o dia
aniquila-se tudo, cessa o mundo
o tempo em pó
contemplamos a locomotiva da luxúria
numa viagem ópio
sangramo-nos
em luta ou em valsa,
somos nós, do início da vida
mar repleto, incessante,
suspiro e sorriso escrito com cinco palavras
três nomes, esguios e redondos, fechados
e temos a presença aqui, ali, num lado e no outro do espelho
sublime ausência sempre de frente para o mar.







segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Avesso



Tocaste o chão
braços compridos, andas de ingenuidade
um andar reflexivo, lascivo
amparo-te com o olhar
trago a tua marca
guardo o reduto
enleamos as sombras
e o calor abre às estrelas o céu
espreitamos
elevamo-nos de máximos ligados
mais depressa que a luz
a relva molhada é sempre fresca
sabem-no os pés que a pisam.




domingo, 1 de setembro de 2013

Veneno



Rasteja até mim.
Subrepticiamente surpreende-me
no altar de ti inocular o teu veneno
segurar-te entre as mãos
curvas e linhas
assimetria do ébrio
desventrar-te num impulso insane
e morrer num esgar de prazer
nesse lugar de tudo e de nada
hipotálamo do inominável
são as veias acossadas
ocre veludo vício veneno.
Rasteja até mim.



terça-feira, 23 de julho de 2013

Waterfall - Torres


Pra sempre o toque no teu ombro
e a marca confusa na roupa da cama
os dedos perdidos nos dedos
a flor que pedes
o repouso quieto teu peso no colo
o jazz no rádio
luz que prespassa o copo de marguerita
para sempre os livros que largas desarrumados
o perfume verde e a cerejas nas roupas caídas
o meu nome na tua boca
os olhos encharcados de ti
abertos ou fechados.

By água das pedras








Veio devagar em bicos dos pés como as crianças e sentou-se na barriga do mundo dos pés da cama á espera que o sono vagasse o lugar ao acordar, para depois sorrir e dizer bom dia, sem roupa, como quem acaba de nascer.

by bica curta


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Adn


Tão perto de ti como a alsa de um vestido no ombro
Subtraí a massa ao meu corpo, sem carne
Etéreo, colado num vácuo
Ser tudo o mais que me rodeia
A presença de ti
As mãos a segurar as cordas num piano
Controlar o ressoar num assertivo acerto do timbre
Mais fundamental que um caracter inscrito numa tatuagem
Partícula ínfima proteína modificada no teu adn
Porque é sempre no fora de mim
Esquecido do resto dos dias
Que procuro as curvas para depois as olvidar
E sublinhar assim esse embaraçado novelo de emoções,
Na tua pele.


domingo, 9 de junho de 2013

Reinvenção



Escutar-te-ei


larva de seda por entre linho

o sentido de ti

nas palavras dissecadas

mascadas longamente

prolongando o som e os silêncios

na tua boca, mover-me

enrolar nos dedos o teu id

e a líbido soprada no ar

muito mais que por dentro

ter-te por fora

como um cataclismo a obliterar-te

cessando tudo em teu redor

só para ficares tu

e consumir-te nesse reduto

a inversa da entropia

lado fora de ti

postulado do absoluto reinventado

tu, um cosmos.






quinta-feira, 6 de junho de 2013

I switch between this and that like footsteps of a cockroach.


Confusion


Folhas caducas

Há-de ser uma força avassaladora
as patas da joaninha
num quase imperceptível ramo
pequeno, pequeno
os verdes de todos os tons
a luz filtrada
vermelho escondido
sons em redor
batem as asas da borboleta
as larvas saem e as sementes germinam
as gotas são mares
os perfumes, indizíveis
e depois há as letras
e os homens e mulheres
a calcar cimento e alcatrão
e o barulho ruidoso que cala a todos
e tudo é cinzento e em excesso
neons e passadeiras
as crianças já não trazem berlindes nos bolsos
e no entanto
a rádio toca
para a joaninha 
para o cego e o velho sentado
para as silhuetas irrequietas atrás das janelas espelhadas
um planeta sem silêncios 
azul
que se esquece de olhar para dentro 
que é onde se vê mais longe.



Contemplation


I am the in-between stars
not a comet nor a molecule
just there
to contemplate You
from the higher place I can get
to know how You look
from an infinite perspective.







Burroughs

Como transformar um massacre numa orgia.


A um suspiro de distância

















Quando estás a um suspiro de distância
não preciso de te alcançar num toque ou beijo
sinto-te
num estremecer próprio do electromagnetismo
e alinho-me nesse campo potencial
arranhas-me e são violinos os arrepios propagados
violeta branco e negro
as sombras no escuro adivinham-se
e volto ao suspiro
volto a esse vácuo
súbito beijo.

Judge Jury and Executioner



"Durante algum tempo em Berlim, perguntou-se quais os livros que devia levar consigo. A sua primeira ideia fora que depois das longas marchas pela floresta e no silêncio das cabanas da aldeia iria precisar de uma leitura leve. Os hábitos de leitura tinham-no quase abandonado em África... Mas ocorreu-lhe, antes de começar a procurar esses livros em Berlim, que iria acabá-los muito depressa. E havia mais outra coisa: aqueles livros iriam, com a sua simplicidade, criar-lhe imagens mentais de um mundo para o qual já não tinha qualquer serventia. Por isso, e de um modo insidioso, corrompiam-no, e não eram tão inofensivos como ele pensava."


V.S. Naipul in Sementes Mágicas


Shotgun Wedding



I want to uncover our box
the dust and dirt filled with lipstick
fuck you while I do some shooting
playing Naked City and screaming some Ducasse nasty lines
I want to leave sentences in the form of wounds
kiss you like an eruption
eat you like my favourite desert
be one with you inside a bullet
the most sharp end of a katana
art in a cave
I want you magnetic curve turning red, all the time.