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sábado, 23 de agosto de 2014

Para além de ler, pensar quem escreve.



Como se um poema fosse uma fotografia, eu tento sempre espreitar pelo outro lado da objectiva para ver quem olha o retrato e o porquê do retrato... é uma espécie de bisbilhotice, como se o poema não chegasse; é sempre preciso saber quem o escreve e porque o escreve.
Que estaria ele, o poeta, a pensar?

Será que o que escreve é uma dissertação duma imagem na retina, ou será um filme; será o tempo do café, ou será um dia inteiro?

E porque é que escreve?

Para mim ler um poema é observar num loop infinito de tempo o próprio acto de escrever, por isso, a morte dos poetas é coisa que não existe enquanto houver a obra e quem os leia.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Bocage


"Soneto do prazer ephemero

Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cu na aberta greta
A quem não foder bem ca neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixae essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Si pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Sinão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto ja; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras!"




Quando era miúda e andava atrás dos livros de poesia dos meus pais, fui dar com uns muito amarelos e empoeirados livros escondidos atrás dos épicos - diria agora que estavam escondidos à espera de eu ter a altura certa para os descobrir, foi então que ao folhear, a minha pré-adolescência corou envergonhada de empatia.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Dos poetas



Estou aqui a ler Herberto Helder, livro "As Magias", e confesso-me soterrada, meio abismada com o que leio.
Às vezes tenho a sensação que os grandes poetas o foram por sorte, porque nunca calhou tropeçarem numa faca, ou caírem da janela sem querer, ou espreitarem demasiado da ponte, repetidamente.
Ou então são uns heróis de coragem. Ficam prostrados ao vento em contrapeso com a gravidade e contra o mundo. São uns resistentes, uns lutadores.
Se continuo a pensar nisto fico com a ideia que de tanto escreverem a morte, morrer é a ultima coisa que querem e continuam a escrever como quem a enxuta à vassourada como se faz aos bichos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Já ninguém



Revolvem-se sombras geocentricamente em frente
vielas roucas de bairro arrastam demoradamente 
preâmbulos monótonos da insignificância
carceres vulgarmente ocasionais
e já ninguém estranha.

Da vida e da sua exiguidade
ninguém lembra a causa de tamanho lapso
- é a vida – dizem com voz de cansaço.

Entre o pó esquecido dos dias afio o gume
desinteressadamente rombo da humanidade.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevoando a paisagem cultural portuguesa



Deixa-los ignóbeis e profanos, defuntos e cinzentos, pois nós somos de luz e de helénicas colunas de vontade e de ânsias de saberes e do mundo. 
Deixa-los ser, pequenos e redundantes, pois nós somos a letra e a flor.

Deixa-los. 
Os jardins não se fazem de ervas infestantes nem de larvas parasitas. 

Voamos acima deles, os seres alados enxergam mais e mais longe e não são tocados pelo que no chão rasteja.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Manoel de Barros & Edgar Varese


"A disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores."


De: Manoel de Barros, Tratado geral das grandezas do Ínfimo





Contemporâneos e modernistas, ambas as obras escritas na primeira metade do Séc. XX.

Eis o desafio aos sentidos, ao pensamento, à abstracção, à concentração, à pesquisa.
Eis o desvio à norma e ao facilitismo.
Eis o trilhar de novos caminhos e citando John Cage :

"Eu não quero ultrapassar o muro, quero derrubá-lo".
John Cage



O Belo não pode ser sempre uma mesma coisa. Temos de desafiar a nossa percepção, os sentidos, as emoções e o racional. Temos de saltar no abismo. Parar e escutar por mais de 3 minutos. Ler mais que uma frase.







segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Zanguei-me e atirei-o contra a parede




Espera-me naquele recanto do armário quando a lua procura o sol. Das mãos molhadas agarradas aos tornozelos existe ainda a exactidão do teu corpo e a saudade cresce-me dentro do peito como um medo do teu desencanto.
Não te zangues. Não me atires pela janela porque eu, embora borboleta no nosso jardim, não sei voar a não ser no teu ombro.
Não te zangues. Atira-me contra o tapete negro e beija-me promessa de ser mulher borboleta jardim de primavera dos teus olhos.
Não te zangues. Não me olhes enquanto eu não conseguir encontrar os pedacinhos que parti quando caí. 
Não te zangues. Eu sou do tempo dos contos de fadas, do tempo do cavaleiro branco e, por isso, não consigo dispensar a poesia feita à luz da perfeição e um poema não é perfeito, nunca.

Não te zangues. Eu sou pequenina e o mundo é tão grande...
Não te zangues. Eu preciso de ti, como de pão para a boca.

Não te zangues.
Abraça-me.

sábado, 17 de agosto de 2013

Crua



Não me fales das flores, dos campos, das cores, do arco-íris e das papoilas.
Fala-me da carne crua que levas à boca, das fodas loiras, do esmagamento do ar nos pulmões, da claustrofobia da solidão e da masturbação.
Sussurra-me ao ouvido aquele momento de lucidez que permitiste à loucura.
Lê-me os cantos de maldoror como uma história de embalar e aconchega-me com o manto surreal do teu abraço à meia luz da tua insónia; Escreve no meu corpo a violência do teu tormento com a clareza do som da tua voz.

Dá-me tudo, porque eu tenho uma fome imensa de um universo que espera.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Florbela


De ti sobraram as lâmpadas da noite no horizonte da planície. 
Guardei no entanto as papoilas usadas entre as letras dum livro que me ofereceste.
Que modo parvo de guardar a memória com cheiro a sentimentalismo barato. 
A julgar pelo aspecto gasto deveria imaginar as décadas das tuas mãos, mas não, prefiro guardar no horizonte a memória barata dum livro gasto.

Sento-me com a Florbela e aceno com a cabeça o quão pobres somos. As mesmas, sempre, para dizer várias coisas. 

Velhas e gastas, Florbela, velhas e gastas...


domingo, 9 de junho de 2013

Reinvenção



Escutar-te-ei


larva de seda por entre linho

o sentido de ti

nas palavras dissecadas

mascadas longamente

prolongando o som e os silêncios

na tua boca, mover-me

enrolar nos dedos o teu id

e a líbido soprada no ar

muito mais que por dentro

ter-te por fora

como um cataclismo a obliterar-te

cessando tudo em teu redor

só para ficares tu

e consumir-te nesse reduto

a inversa da entropia

lado fora de ti

postulado do absoluto reinventado

tu, um cosmos.






quinta-feira, 6 de junho de 2013

Burroughs

Como transformar um massacre numa orgia.


Judge Jury and Executioner



"Durante algum tempo em Berlim, perguntou-se quais os livros que devia levar consigo. A sua primeira ideia fora que depois das longas marchas pela floresta e no silêncio das cabanas da aldeia iria precisar de uma leitura leve. Os hábitos de leitura tinham-no quase abandonado em África... Mas ocorreu-lhe, antes de começar a procurar esses livros em Berlim, que iria acabá-los muito depressa. E havia mais outra coisa: aqueles livros iriam, com a sua simplicidade, criar-lhe imagens mentais de um mundo para o qual já não tinha qualquer serventia. Por isso, e de um modo insidioso, corrompiam-no, e não eram tão inofensivos como ele pensava."


V.S. Naipul in Sementes Mágicas


terça-feira, 4 de junho de 2013

Os cantos de Maldoror - Poesias I & II


"Vi-os também a corar, a empalidecer de vergonha devido à sua conduta neste mundo; raramente.(...) Deus, que criaste com magnificiência, é a ti que invoco: mostra-me um homem que seja bom!...Mas que a tua graça decuplique as minhas forças naturais; já que, perante o espectáculo desse monstro, posso vir a morrer de assombro: há quem morra por menos."

Em "Os cantos de Maldoror - Poesias I & II" de Conde de Lautréamont . Isidore Ducasse da editora Antígona. 



Pensei um dia em beijar-te a fronte enquanto arranco minuciosamente das tuas asas, o caminho que me obrigas-te a percorrer.