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sábado, 23 de agosto de 2014

Para além de ler, pensar quem escreve.



Como se um poema fosse uma fotografia, eu tento sempre espreitar pelo outro lado da objectiva para ver quem olha o retrato e o porquê do retrato... é uma espécie de bisbilhotice, como se o poema não chegasse; é sempre preciso saber quem o escreve e porque o escreve.
Que estaria ele, o poeta, a pensar?

Será que o que escreve é uma dissertação duma imagem na retina, ou será um filme; será o tempo do café, ou será um dia inteiro?

E porque é que escreve?

Para mim ler um poema é observar num loop infinito de tempo o próprio acto de escrever, por isso, a morte dos poetas é coisa que não existe enquanto houver a obra e quem os leia.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





terça-feira, 15 de outubro de 2013

aos filhos



Dormias aos pés da minha alegria
em cadências de respirações ovais
a certeza de existir colossalmente em tamanha pequenez
de sorriso branco que um dia me diria
que a vida foi em ti um banco 
com vista para o jardim. 


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Já ninguém



Revolvem-se sombras geocentricamente em frente
vielas roucas de bairro arrastam demoradamente 
preâmbulos monótonos da insignificância
carceres vulgarmente ocasionais
e já ninguém estranha.

Da vida e da sua exiguidade
ninguém lembra a causa de tamanho lapso
- é a vida – dizem com voz de cansaço.

Entre o pó esquecido dos dias afio o gume
desinteressadamente rombo da humanidade.