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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Bocage


"Soneto do prazer ephemero

Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cu na aberta greta
A quem não foder bem ca neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixae essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Si pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Sinão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto ja; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras!"




Quando era miúda e andava atrás dos livros de poesia dos meus pais, fui dar com uns muito amarelos e empoeirados livros escondidos atrás dos épicos - diria agora que estavam escondidos à espera de eu ter a altura certa para os descobrir, foi então que ao folhear, a minha pré-adolescência corou envergonhada de empatia.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Dos poetas



Estou aqui a ler Herberto Helder, livro "As Magias", e confesso-me soterrada, meio abismada com o que leio.
Às vezes tenho a sensação que os grandes poetas o foram por sorte, porque nunca calhou tropeçarem numa faca, ou caírem da janela sem querer, ou espreitarem demasiado da ponte, repetidamente.
Ou então são uns heróis de coragem. Ficam prostrados ao vento em contrapeso com a gravidade e contra o mundo. São uns resistentes, uns lutadores.
Se continuo a pensar nisto fico com a ideia que de tanto escreverem a morte, morrer é a ultima coisa que querem e continuam a escrever como quem a enxuta à vassourada como se faz aos bichos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Já ninguém



Revolvem-se sombras geocentricamente em frente
vielas roucas de bairro arrastam demoradamente 
preâmbulos monótonos da insignificância
carceres vulgarmente ocasionais
e já ninguém estranha.

Da vida e da sua exiguidade
ninguém lembra a causa de tamanho lapso
- é a vida – dizem com voz de cansaço.

Entre o pó esquecido dos dias afio o gume
desinteressadamente rombo da humanidade.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevoando a paisagem cultural portuguesa



Deixa-los ignóbeis e profanos, defuntos e cinzentos, pois nós somos de luz e de helénicas colunas de vontade e de ânsias de saberes e do mundo. 
Deixa-los ser, pequenos e redundantes, pois nós somos a letra e a flor.

Deixa-los. 
Os jardins não se fazem de ervas infestantes nem de larvas parasitas. 

Voamos acima deles, os seres alados enxergam mais e mais longe e não são tocados pelo que no chão rasteja.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Título de jornal: "Património natural ameaçado por especulação"



treme o cigarro compulsivamente contra o cinzeiro aborrecido
vascolejas opinativas respeitabilidades estatísticas do falecido
21 gramas é o que se esfuma. heurísticas
subtraídas à instrução ignorante da negligência de viver
apagas o vicio enervado passivo funeral
contra o pano de fundo da mediocridade
e definhas folhas de silêncio
em decrescente contentamento melancólico
porque o pensamento é um alcoólico
em vias de extinção
cancro em remissão
na Lei Seca da liberdade.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

sossego




adormecer por entre pernas e braços
exaustos.
prefácio obscuro de uma misantropia premiada
em ínsulas mornas de sono estendido.


(lá fora discutem a dureza longa da miserável escravatura dos dias exauridos em vinganças medíocres.)



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

aRTE



Foram as palavras criadas
do pó e do éter pensado
descodificado o mundo
e os mistérios revolvidos
acima de ti e de mim a Arte
Helénicos e Gregos trovadores
a encenar o súbtil, as lágrimas e o sangue
o ciúme e a paixão
os mitos e as Deusas
templos de multidões
espetáculos e a eternidade
é preciso incendiar esse chão que pisam
imular os obscurantistas
elevar o espírito que nos precede
e faz de nós a praia mais iluminada
aqui a Ocidente.