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sexta-feira, 4 de julho de 2014

To my Bunita



Sumiste-te na graça de um colibri
perfumando os sentidos,
gentilmente

uma ágata ébano e gengibre
formiga vermelha de beliscadura fina,
dolorosa, inquietante e muito viciante
a gotejar numa mimíca de adivinha da tua voz

lento bater nessa pele sempre capa de um verso
doçura no leve desprender desse toque
antes do próximo toque
momentos azuis e depois carmim
uma metáfora que mate a metáfora
de seres a Deusa inequivocamente singular.

Num só verso desenhar o inimitável de ti
verter num chão sagrado
pétalas a teus pés.

Língua, silêncio e o delírio,
destes versos, nem a morte nem canções
levarão.







segunda-feira, 21 de outubro de 2013

parti cula






não foi a partícula do tempo, nem a particularidade
de se suceder espontaneamente combustão
foi a mera possibilidade de haver nada na singularidade
expandida ao mícron da exaustão de um tempo que voou
pela palma da minha mão.
faltou-lhe a massa prosaica de se acontecer matéria
na boca que procurou um beijo ao vento,
afinal, a vida, partícula etérea não dorme ao relento
da ínfima e intrínseca miséria.



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Igor Stravinsky e eu



Se mergulhar de repente
como quem faz música por dentro da tua pele
rasgar-te-ei pautas
sem Dó.
enquanto é tempo,
não sei se aguento:
comer-te as entranhas por dentro
desarranjar partituras
graves profundidades
de agudos
só.


O destino



Numa tangente a uma curva
num ponto
onde nos podemos mover, imóveis
o espaço em volta
são os passos de volta
disseram do paradoxo
inventámos a solução
gato morto e vivo, a simultaniedade
estamos na mesma espiral
o encontro uma inevitabilidade
fusão atómica de atmosferas sob altas pressões
espasmo de néons, encadeados na luz
ébrios no vinho
puros na água
caminhámos tanto até aqui, mesmo que quietos
os pés doídos, como se tivéssemos percorrido o mundo todo
os papéis dispersos, agora juntos numa gaveta
o esboço
palavras e versos, ideias
o pranto floriu ode, harmónicas subliminares
a urdirem-nos numa hipérbole de nós, para nós.






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Espelho





Nós! Amantes.

A embriaguez dos Amantes
o rasto que se deixa na areia
corpos voláteis matéria prima da paixão
de um triângulo rodado um dodecaedro
a possibilidade de todos os ângulos
a luz contida, míriades de reflexos.

Eu o teu espelho
tu o meu
nós um espelho
ela do espelho
ele no espelho
tu espelho
nós um espelho
nós, espelho.
Nós!


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

sossego




adormecer por entre pernas e braços
exaustos.
prefácio obscuro de uma misantropia premiada
em ínsulas mornas de sono estendido.


(lá fora discutem a dureza longa da miserável escravatura dos dias exauridos em vinganças medíocres.)



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

aRTE



Foram as palavras criadas
do pó e do éter pensado
descodificado o mundo
e os mistérios revolvidos
acima de ti e de mim a Arte
Helénicos e Gregos trovadores
a encenar o súbtil, as lágrimas e o sangue
o ciúme e a paixão
os mitos e as Deusas
templos de multidões
espetáculos e a eternidade
é preciso incendiar esse chão que pisam
imular os obscurantistas
elevar o espírito que nos precede
e faz de nós a praia mais iluminada
aqui a Ocidente.




Manoel de Barros & Edgar Varese


"A disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores."


De: Manoel de Barros, Tratado geral das grandezas do Ínfimo





Contemporâneos e modernistas, ambas as obras escritas na primeira metade do Séc. XX.

Eis o desafio aos sentidos, ao pensamento, à abstracção, à concentração, à pesquisa.
Eis o desvio à norma e ao facilitismo.
Eis o trilhar de novos caminhos e citando John Cage :

"Eu não quero ultrapassar o muro, quero derrubá-lo".
John Cage



O Belo não pode ser sempre uma mesma coisa. Temos de desafiar a nossa percepção, os sentidos, as emoções e o racional. Temos de saltar no abismo. Parar e escutar por mais de 3 minutos. Ler mais que uma frase.







domingo, 7 de julho de 2013

Arte



Foram as palavras criadas
do pó e do éter pensado
descodificado o mundo
e os mistérios revolvidos
acima de ti e de mim a Arte
Helénicos e Gregos trovadores
a encenar o súbtil, as lágrimas e o sangue
o ciúme e a paixão
os mitos e as Deusas
templos de multidões
espetáculos e a eternidade
é preciso incendiar esse chão que pisam
imular os obscurantistas
e elevar o espírito que nos precede 
e faz de nós a praia mais iluminada 
aqui a Ocidente.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Folhas caducas

Há-de ser uma força avassaladora
as patas da joaninha
num quase imperceptível ramo
pequeno, pequeno
os verdes de todos os tons
a luz filtrada
vermelho escondido
sons em redor
batem as asas da borboleta
as larvas saem e as sementes germinam
as gotas são mares
os perfumes, indizíveis
e depois há as letras
e os homens e mulheres
a calcar cimento e alcatrão
e o barulho ruidoso que cala a todos
e tudo é cinzento e em excesso
neons e passadeiras
as crianças já não trazem berlindes nos bolsos
e no entanto
a rádio toca
para a joaninha 
para o cego e o velho sentado
para as silhuetas irrequietas atrás das janelas espelhadas
um planeta sem silêncios 
azul
que se esquece de olhar para dentro 
que é onde se vê mais longe.