quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Água



Movo-me como a água,
jardim encantado, os dedos como gotas,
pousaram em ti.

O rio a dominar o leito por onde passa.

Água a correr sobre ti.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Desconheço


Há coisas das quais não se pode fugir, nem fingir,
a morte é uma delas.
A haver dúvidas basta inserir
delicadamente
os dedos no centro do mundo
e ouvir
de quantos lençóis amarrados se faz uma semana;
e se há, ou não, contas para pagar.

Em suma, nunca se deve procurar as estrelas de dia.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014







tu escreves os versos
eu leio-te
estamos onde? no quarto, no quintal
eu penso: -sempre
tu sussurras um unguento
eu escuto-te porque sei o que dizes mesmo quando não te oiço
tu pensas: - está frio, a que distância estará o sol?
eu corro: -vou comprar cartão e o alogénio todo do mundo para te iluminar
tu quiseste uma casa
eu quis uma casa
somos o espaço
tu humedeces os teus lábios
eu penetro nos teus olhos
tu vagueias numa ideia, nas tuas vastas ideias
eu sou a vígilia e a noite clara
tu és o verde e uma cor designada, perfume do meu jasmim
eu espalho as sementes das flores que quero que te cerquem
tu acordas
eu aqueço o leite
tu estendes-te no sofá
eu rejubilo
tu beijas-me
eu beijo-te


sábado, 23 de agosto de 2014

Para além de ler, pensar quem escreve.



Como se um poema fosse uma fotografia, eu tento sempre espreitar pelo outro lado da objectiva para ver quem olha o retrato e o porquê do retrato... é uma espécie de bisbilhotice, como se o poema não chegasse; é sempre preciso saber quem o escreve e porque o escreve.
Que estaria ele, o poeta, a pensar?

Será que o que escreve é uma dissertação duma imagem na retina, ou será um filme; será o tempo do café, ou será um dia inteiro?

E porque é que escreve?

Para mim ler um poema é observar num loop infinito de tempo o próprio acto de escrever, por isso, a morte dos poetas é coisa que não existe enquanto houver a obra e quem os leia.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

To my Bunita



Sumiste-te na graça de um colibri
perfumando os sentidos,
gentilmente

uma ágata ébano e gengibre
formiga vermelha de beliscadura fina,
dolorosa, inquietante e muito viciante
a gotejar numa mimíca de adivinha da tua voz

lento bater nessa pele sempre capa de um verso
doçura no leve desprender desse toque
antes do próximo toque
momentos azuis e depois carmim
uma metáfora que mate a metáfora
de seres a Deusa inequivocamente singular.

Num só verso desenhar o inimitável de ti
verter num chão sagrado
pétalas a teus pés.

Língua, silêncio e o delírio,
destes versos, nem a morte nem canções
levarão.







terça-feira, 1 de julho de 2014

Ninguém tropeça nos dias



As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo.
Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde.
Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres.
As ruas. Cinzento. Nada.
E a memória do mar.





sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sem parafrenália



Não sei mais que abraçar a aragem do voo dos pássaros sobre o horizonte poente
perder a vista lentamente sobre o calor;
nas mãos a raiz húmida do deserto,
perder as asas e secar lentamente
à exposição desoladora
da superlatividade.