Há coisas das quais não se pode fugir, nem fingir, a morte é uma delas. A haver dúvidas basta inserir delicadamente os dedos no centro do mundo e ouvir de quantos lençóis amarrados se faz uma semana; e se há, ou não, contas para pagar.
Em suma, nunca se deve procurar as estrelas de dia.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
tu escreves os versos eu leio-te estamos onde? no quarto, no quintal eu penso: -sempre tu sussurras um unguento eu escuto-te porque sei o que dizes mesmo quando não te oiço tu pensas: - está frio, a que distância estará o sol? eu corro: -vou comprar cartão e o alogénio todo do mundo para te iluminar tu quiseste uma casa eu quis uma casa somos o espaço tu humedeces os teus lábios eu penetro nos teus olhos tu vagueias numa ideia, nas tuas vastas ideias eu sou a vígilia e a noite clara tu és o verde e uma cor designada, perfume do meu jasmim eu espalho as sementes das flores que quero que te cerquem tu acordas eu aqueço o leite tu estendes-te no sofá eu rejubilo tu beijas-me eu beijo-te
Como se um poema fosse uma fotografia, eu tento sempre espreitar pelo outro lado da objectiva para ver quem olha o retrato e o porquê do retrato... é uma espécie de bisbilhotice, como se o poema não chegasse; é sempre preciso saber quem o escreve e porque o escreve. Que estaria ele, o poeta, a pensar?
Será que o que escreve é uma dissertação duma imagem na retina, ou será um filme; será o tempo do café, ou será um dia inteiro?
E porque é que escreve?
Para mim ler um poema é observar num loop infinito de tempo o próprio acto de escrever, por isso, a morte dos poetas é coisa que não existe enquanto houver a obra e quem os leia.
Sumiste-te na graça de um colibri perfumando os sentidos, gentilmente
uma ágata ébano e gengibre formiga vermelha de beliscadura fina, dolorosa, inquietante e muito viciante a gotejar numa mimíca de adivinha da tua voz
lento bater nessa pele sempre capa de um verso doçura no leve desprender desse toque antes do próximo toque momentos azuis e depois carmim uma metáfora que mate a metáfora de seres a Deusa inequivocamente singular.
Num só verso desenhar o inimitável de ti verter num chão sagrado pétalas a teus pés.
Língua, silêncio e o delírio, destes versos, nem a morte nem canções levarão.
As ruas cheias de vidros, plásticos, garrafas e pontas fumadíssimas de cigarros e algumas ganzas. Tudo era uma tendência inabalável para a morte poluída, como quem prefere o suicídio, à morte pelas facas do inimigo. Cinzento, tudo muito cinzento e no chão desenhava-se com os dedos pinturas rupestres do que um dia foram as flores, o mar e a primavera. Agora, debaixo do desenho e dos dedos cinzentos, existia somente o vestígio do que outrora fora verde cor de relva; havia até alguns que através duma nova tradição oral, conseguiam ainda relatar levemente o que fora uma floresta, ou qual o cheiro da chuva no campo ou até a que sabia o mar azul e verde. Nada. Só existia cinzento e o mar, essa coisa agora intocável, servia somente como cemitério dos pobres. As ruas. Cinzento. Nada. E a memória do mar.
Não sei mais que abraçar a aragem do voo dos pássaros sobre o horizonte poente perder a vista lentamente sobre o calor; nas mãos a raiz húmida do deserto, perder as asas e secar lentamente à exposição desoladora da superlatividade.