quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

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Do Alentejo

Quero o branco persistente nas paredes fartas de cal
marcadas de rugas como as mãos velhas que as pintam
quero o amarelo citrino do trigo aurora ceifado de tarde
entre segredos lentos e demorados
campos tingidos por papoilas vermelho ao sol
vozes que se levantam do chão e entoam o canto austero cavado de enxadas, 
lavam as lágrimas sinuosas dum sofrimento espesso a rasgar o sufoco dessa muda liberdade
os girassóis parecem cobrir tudo o que a vista alcança, perdem a forma
quando tocam o horizonte olham-nos de frente com um olhar de que ninguém se escapa
filhos de uma terra de claridade, comem  o pão duro
o Alentejo quando arde cheira a azinho, coentros da Lurdes e orégãos
as portas nunca se fecham, deixam-nas escancaradas ao assomo das almas
escuta-se o silêncio e o canto nocturno do mocho na oliveira
sábios dos cardos às estrelas, do que rasteja ao sonho mais improvável
dizem os nomes de pássaros que ninguém viu
copos ínfimos a transbordar do tinto do Vai-à-Vila
sei a profundidade da ribeira e os contornos da pedreira que me ensinaram a ver
na lonjura desse caminho fui menino e fiz-me homem
é para cá que me trouxe, é aqui que me quero.




2 comentários:

Filipe Campos Melo disse...

Um traço bucólico incontornável
alicerçado em versos muito muito belos

como por exemplo o excelente início do poema

"Quero o branco persistente nas paredes fartas de cal
marcadas de rugas como as mãos velhas que as pintam
quero o amarelo citrino do trigo aurora ceifado de tarde
entre segredos lentos e demorados
campos tingidos por papoilas vermelho ao sol
vozes que se levantam do chão e entoam o canto austero cavado de enxadas"

Um traço aprimorado na reconstrução de um mundo (quase diria, um Alentejo surreal) de diferentes tons
Nessa reconstrução cénica se guardando, quase entrelinhas, a sensibilidade (emoção/memória) que perpassa o poema

Gostei Muito

Abraço

conjugada

Bica Curta disse...

Caro Filipe,

Ainda bem que gostou.
Trata-se sim de um retrato melancólico do Alentejo.

Obrigada!